Com show de Salah, Egito encerra jejum de 96 anos e sonha alto no Mundial

Nem Bélgica, nem Irã, tampouco Nova Zelândia. A seleção que lidera o Grupo G da Copa do Mundo de 2026 responde pelo nome de Egito. Uma situação que poucos imaginavam antes do início do torneio, principalmente porque os Faraós chegaram ao Mundial sem estarem entre as seleções mais badaladas do continente africano. Porém, após duas rodadas disputadas, os egípcios não apenas permanecem invictos, como também ocupam a liderança isolada da chave e dependem apenas de si para avançar à próxima fase da competição como primeiros colocados da chave.

O triunfo por 3 a 1 sobre a Nova Zelândia entrou imediatamente para a história do futebol egípcio. Afinal, trata-se da primeira vitória do Egito em uma Copa do Mundo após uma espera de impressionantes 96 anos. Desde a estreia dos Faraós em 1934, o Egito jamais havia conseguido vencer uma partida sequer em Mundiais. Também passou em branco nas edições de 1990 e 2018, acumulando eliminações precoces e deixando a sensação de que o torneio sempre representava uma barreira difícil de ser superada.

Por isso, o triunfo conquistado em Vancouver possui um peso que vai muito além dos três pontos. Trata-se de uma conquista histórica para uma das seleções mais tradicionais do futebol africano. O Egito é o maior vencedor da Copa Africana de Nações, com sete títulos conquistados ao longo de sua trajetória, mas sempre carregou o estigma de não conseguir repetir o mesmo sucesso quando chegava ao principal palco do futebol mundial. Agora, essa escrita finalmente foi quebrada.

Curiosamente, o cenário da partida não começou nada favorável para os egípcios. A Nova Zelândia mostrou personalidade nos primeiros minutos e conseguiu abrir o placar ainda na etapa inicial. O gol neozelandês silenciou a maior parte vermelha presente no BC Place e trouxe à memória dos torcedores egípcios os fantasmas das campanhas anteriores. Afinal, a oportunidade de conquistar a primeira vitória em Copas parecia novamente escapar das mãos dos Faraós.

A situação se tornou ainda mais preocupante quando o árbitro encerrou o primeiro tempo com vantagem de 1 a 0 para os neozelandeses. Naquele momento, os questionamentos começaram a surgir naturalmente. Será que o Egito mais uma vez fracassaria diante da chance de fazer história? Será que a ansiedade estaria pesando sobre os jogadores? Eram perguntas inevitáveis para uma seleção que carregava décadas de frustrações acumuladas em Copas do Mundo.

Entretanto, a postura do Egito na segunda etapa foi completamente diferente. A equipe voltou dos vestiários demonstrando muito mais agressividade, intensidade e confiança. Os comandados de Hossam Hassan adiantaram suas linhas de marcação, passaram a pressionar a saída de bola da Nova Zelândia e assumiram definitivamente o controle das ações ofensivas. O resultado foi um segundo tempo absolutamente dominado pelos Faraós.

O gol de empate surgiu através de Mostafa Ziko, aproveitando um excelente cruzamento do lateral Mohamed Hany. O lance mudou completamente o panorama da partida. A partir daquele momento, a confiança egípcia cresceu de maneira visível, enquanto os neozelandeses passaram a demonstrar dificuldades para conter o volume ofensivo adversário. O empate não apenas recolocou o Egito no jogo, mas também serviu como combustível emocional para a virada.

Dez minutos depois, apareceu o maior nome da história do futebol egípcio. Mohamed Salah mostrou mais uma vez sua capacidade de decidir partidas importantes e marcou o tento que colocou os Faraós em vantagem. A comemoração foi intensa e carregada de simbolismo, tendo em vista que não era apenas um gol em Copa do Mundo. Era um passo gigantesco rumo à primeira vitória da seleção egípcia na história da competição.

Já nos instantes finais, quando a partida caminhava para os acréscimos, Trezeguet aproveitou uma cobrança de escanteio executada por Mohamed Salah para decretar o placar final em 3 a 1. O gol trouxe tranquilidade aos egípcios e permitiu que a torcida presente em Vancouver começasse a celebrar antecipadamente um dos momentos mais marcantes da trajetória da seleção do Egito. O apito final apenas confirmou aquilo que parecia cada vez mais inevitável.

Naturalmente, o grande personagem da partida foi Mohamed Salah. Considerado o maior jogador da história do futebol egípcio, o camisa 10 segue sendo o principal símbolo esportivo do país. Porém, chama atenção a maneira como o técnico Hossam Hassan vem utilizando o atacante nesta Copa do Mundo. Diferentemente dos tempos de Liverpool, quando atuava aberto pelo lado direito, Salah agora desempenha uma função mais centralizada no setor ofensivo.

A mudança parece fazer todo sentido quando observamos o momento atual da carreira do jogador. Aos 34 anos de idade, Mohamed Salah já não possui a mesma explosão física que o transformou em um dos atletas mais temidos do futebol europeu durante a última década. Além disso, ele chega ao Mundial após uma temporada considerada abaixo das expectativas, com apenas 12 gols marcados pelo Liverpool em todas as competições, seu pior desempenho em uma década.

Atuando mais pelo centro do campo, Mohamed Salah consegue participar da construção das jogadas, distribuir passes decisivos e chegar ao ataque com mais liberdade. Foi exatamente isso que aconteceu diante da Nova Zelândia. Além do gol marcado, ele contribuiu diretamente com uma assistência e participou das principais ações ofensivas do Egito. Dessa forma, continua sendo decisivo mesmo sem depender exclusivamente da velocidade que marcou seus melhores anos.

Ao mesmo tempo, a Copa do Mundo de 2026 também parece representar uma transição importante dentro da seleção egípcia. Enquanto Mohamed Salah continua sendo o rei do futebol local, Omar Marmoush surge cada vez mais como o príncipe destinado a assumir o protagonismo nos próximos anos. A combinação entre experiência e juventude vem funcionando muito bem e ajuda a explicar o excelente início de campanha realizado pelo Egito.

Existe ainda outro aspecto curioso nessa trajetória. Apesar de ser o maior jogador da história recente do Egito, Mohamed Salah jamais conquistou um título pela seleção principal. Os sete títulos continentais do país foram obtidos antes de sua consolidação no futebol internacional, especialmente durante o período dourado entre 2006 e 2010. Por isso, cada nova conquista obtida com a camisa egípcia possui um significado especial para Salah.

Agora, o Egito chega à última rodada dependendo apenas de um empate contra o Irã para confirmar a liderança do Grupo G. Caso consiga alcançar esse objetivo, os Faraós não apenas avançarão para a fase seguinte, mas também conquistarão algo que jamais conseguiram em sua história: disputar a fase eliminatória de uma Copa do Mundo. Mais um capítulo histórico para a seleção africana, que parece determinada a derrubar antigas barreiras.

Se o empate contra a Bélgica na estreia já havia demonstrado que o Egito poderia sonhar alto nesta Copa do Mundo, a vitória de virada sobre a Nova Zelândia transformou esse sonho em algo muito mais concreto. Os Faraós mostraram personalidade, capacidade de reação e qualidade técnica para competir em alto nível. Pela primeira vez em décadas, a torcida egípcia tem motivos reais para acreditar.

Se o futuro reservará ou não uma campanha ainda mais surpreendente, somente os próximos jogos poderão responder. Porém, uma coisa já é certa. Mohamed Salah, Omar Marmoush e companhia não apenas fizeram história. Eles encerraram uma espera de 96 anos e entregaram ao povo egípcio uma das vitórias mais importantes de toda a trajetória da seleção nacional em Copas do Mundo.

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