É preciso muito trabalho e empenho, para uma pessoa construir a imagem de ídolo, ainda mais no Brasil, país de um povo que esquece as coisas tão rapidamente. Rogério Ceni é uma prova viva disso, afinal, após vestir a camisa do São Paulo por 25 anos (1990 – 2015), o único clube de sua gloriosa carreira, o goleiro artilheiro ganhou uma enorme identificação com o Tricolor (apelido do São Paulo), por isso, é sem sombra de dúvidas a figura mais ilustre da torcida são-paulina. Acontece que o dia 03 de julho de 2017, ficará para sempre marcado na história tanto do Mito (apelido de Rogério Ceni) quanto do São Paulo Futebol Clube, como um dos momentos mais tristes vividos por ambos. Uma mancha na trajetória desse ícone são-paulino e do time tantas vezes campeão, feita única e exclusivamente por uma diretoria que recentemente, só coleciona vexames, fracassos, lambanças e papelões.
Quando contratou Rogério Ceni em dezembro de 2016, o presidente Carlos Augusto de Barros e Silva, popularmente chamado de Leco, tinha em mente que estava trazendo um treinador inexperiente, que jamais havia trabalhado em nenhuma equipe na carreira e que debutava ali em sua nova profissão, deste modo, seria preciso paciência e tempo para que o trabalho fosse desenvolvido. O mandatário sabia também, que precisava urgentemente vencer as eleições presidenciais do clube, que aconteceriam em abril, portanto, Leco que já havia contratado o zagueiro Diego Lugano no ano anterior, necessitava do apoio de um grupo maior de conselheiros, justamente para vencer as eleições e permanecer na presidência. Resumindo, foi assim que o manda-chuva conseguiu se reeleger, fazendo pura politicagem, em outras palavras, usando a imagem de Rogério Ceni e Diego Lugano, trazidos pelo então presidente, como uma forma de amor, carinho e respeito ao Tricolor do Morumbi. Passados seis meses da chegada de Ceni ao comando técnico do São Paulo, Leco e sua trupe deixaram em último plano o amor, o carinho e o respeito pela figura do ídolo, não pensaram duas vezes, e demitiram o treinador, depois da entrada do tri-campeão mundial na zona do rebaixamento do Campeonato Brasileiro, e o pior de tudo, sem dar nenhuma explicação do porque da demissão aos torcedores.

É nítido que a campanha do São Paulo no Campeonato Brasileiro não é nada boa, basta olharmos a classificação da competição. Em 11 rodadas realizadas, o Tricolor soma apenas 11 pontos, colecionando 3 vitórias, 2 empates e 6 derrotas, obtendo assim um aproveitamento de 33,3%. Mas apontar Rogério Ceni como o principal culpado da atual situação do Tricolor Paulista é algo extremamente injusto, até porque não foi ele que saiu vendendo atletas a rodo em pleno meio de temporada. Como exigir dele a montagem de um time, se esse time perde jogadores a cada semana? Além disso, a maior parte das pessoas, analisa somente resultados, pois quem acompanha aos jogos, sabe que a posição do São Paulo não condiz com o lugar que a equipe ocupa na tabela. A saída e a chegada de novas peças, atrapalham qualquer treinador, e creio que esse “entra e sai”, tenha sido o real motivo do pedido de demissão do inglês Michael Beale, auxilar técnico de Rogério Ceni, na última sexta-feira. Vale ressaltar também que uma pequena parte da mídia, fazia um lobby absurdo pela demissão do ex-camisa 1, atribuindo a ele, toda a responsabilidade dos problemas vividos pelo clube. Hoje, com certeza essa minoria deve ter acordado soltando fogos de tanta alegria, um detalhe que me causa total estranheza.

O início de Rogério Ceni como treinador foi empolgante, afinal, o técnico tentou implantar no time uma filosofia de jogo bastante inovadora, ofensiva, com marcação pressão na saída de bola do adversário, além de apresentar muita intensidade. Não à toa, o São Paulo teve no Campeonato Paulista a maior média de público da competição superando os rivais Corinthians, Santos e Palmeiras. No entanto, com a escassez de vitórias e principalmente com a falta de mão de obra, o técnico decidiu mudar o seu estilo, colocando em campo uma equipe mais pragmática. Ceni tinha como característica mudar a formação do São Paulo a cada partida, exibindo assim um arsenal de variedades táticas. Era comum ver o Tricolor atuando hora no 3-4-3 (o predileto de Rogério), por vezes no 4-2-3-1, no 4-3-3 e até mesmo no 3-4-2-1, lembrando que o esquema sempre era definido de acordo com o perfil dos oponentes. Em contrapartida, estes são detalhes que a diretoria não leva em consideração, e a falta de resultados aliada as três eliminações (Campeonato Paulista, Copa do Brasil e Copa Sul-Americana) sofridas pelo clube, foram fatores preponderantes para o desgaste da imagem do Mito.

Agora a incompetente diretoria do São Paulo corre contra o tempo atrás de um novo treinador, e o nome que aparece com maior destaque é o de Dorival Júnior, ex-Santos, que caso aceite assumir a equipe do Morumbi, terá de lidar com todas as lambanças do presidente e seus pupilos. Nesse momento, entendo porque os jogadores do São Paulo sonham em sair do clube o quanto antes, uma vez que basta pintar uma proposta para eles solicitarem a transferência de maneira imediata, foi assim com David Neres, Lyanco, Luís Araújo, Maicon, Thiago Mendes e João Schmidt, e continuará sendo enquanto o mandatário Leco estiver lá, ao contrário do rival Corinthians, que segura os seus atletas pois eles simplesmente sentem prazer de vestir a camisa do time que luta por títulos todos os anos. Entendo também as razões pelas quais desde 2009, o São Paulo já trocou de treinadores 17 vezes, ou seja, uma média de dois por ano neste período. A resposta é que a culpa é sempre do treinador, e não do presidente que monta um conselho gestor remunerado com velhas figuras conhecidas do clube, como por exemplo Roberto Natel, Júlio Casares, José Eduardo Mesquita Pimenta, entre outros, não dando espaço para profissionais qualificados, especializados, capazes de assumir tamanha responsabilidade. É por essas e outras, que vejo um futuro preocupante para o São Paulo, a agremiação mais gloriosa do Brasil, que atualmente, transformou-se no Leco Futebol Clube. Diante deste cenário, não me causaria nenhum espanto, ver o Tricolor Paulista disputando a Série B em 2018, pela primeira vez em sua história.