Atlético de Madrid: muito investimento, pouca evolução e uma identidade em crise

A temporada do Atlético de Madrid caminha para a metade com uma sensação incômoda de frustração contida. Não se trata de um colapso esportivo, nem de uma crise a ponto de derrubar o incaível Diego Simeone. Todavia, o desempenho aquém das expectativas só faz aumentar os questionamentos pelos lados do Metropolitano.

Embora situado em seu habitat natural, isto é, na terceira colocação da LaLiga, era esperado muito mais dos comandados de Diego Simeone em função dos altíssimos investimentos realizados nas últimas duas temporadas, lembrando que Atlético de Madrid é, disparadamente, o clube que mais gastou com reforços neste período no futebol espanhol ao desembolsar quase MEIO BILHÃO de euros (€ 418 milhões).

Diante deste cenário, a larga distância de dez pontos em comparação ao líder Barcelona, aliado aos nove em relação ao vice-colocado Real Madrid, demonstra que, mais uma vez, o Atlético de Madrid não foi capaz de figurar entre os protagonistas na briga pelo título da LaLiga apesar dos elevados gastos, algo que também se estende a Champions League, onde os espanhóis disputarão os playoffs de repescagem em razão do pífio 14º lugar na fase de liga.

A propósito, a última aparição do Atlético de Madrid na Champions League deixou a impressão de que nem o estádio Metropolitano, até então considerado a verdadeira fortaleza dos Rojiblancos, já não assusta mais os oponentes, a julgar pela queda diante do Bodo/Glimt por 2 a 1, de virada, ainda que esta tenha sido a primeira derrota sofrida pelo Atleti atuando em seus domínios na temporada, lembrando que o Elche era o único adversário que havia lhe tirado pontos em casa (13V-1E-1D).

Deste modo, fica evidente que a atual performance do Atlético de Madrid não combina com o grupo cada vez mais caro e ambicioso que Diego Simeone tem em mãos. Não à toa, o clube recorreu a janela de transferências de janeiro a fim de fortalecer a equipe e, consequentemente, passar a jogar um futebol mais convincente e competitivo, caso contrário, a movimentação no mercado não seria necessária.

Por sinal, a atuação do Atlético de Madrid no mercado movimentou o total de 54 milhões de euros em virtude das contratações de Rodrigo Mendoza (16m), Obed Vargas (3m), além de Ademola Lookman (35m), o reforço mais impactante apresentando pelos Colchoneros numa negociação que ainda envolveu a ida de Giacomo Raspadori à Atalanta. Aliás, Conor Gallagher também seguiu a mesma direção, porém transferindo-se ao Tottenham.

Vale ressaltar que todas as contratações dos Rojiblancos foram concretizadas no último dia da janela (Deadline Day) e nem todos os pedidos de Diego Simeone foram atendidos, já que a negociação envolvendo a vinda de Marcos Leonardo junto ao Al-Hilal não teve um desfecho positivo. Além do ex-jogador do Santos, o também brasileiro Éderson, da Atalanta, não firmou acordo apesar do enorme desejo de vestir a camisa do Atlético de Madrid.

À vista disso, são mais jogadores qualificados tecnicamente desembarcando na capital espanhola para defender as cores do Atlético de Madrid, o que ao mesmo tempo faz aumentar as dúvidas de se Diego Simeone tem condições de torná-lo capaz de praticar um futebol condizente com as atuais peças, visto que a melhor versão do Atleti desde a chegada do técnico há 15 anos deu-se na temporada 2013/14, marcada pela conquista do título espanhol e pelo vice da Champions League, jogando de maneira reativa, raçuda e explorando tanto os contra-ataques quanto as bolas paradas através da fisicalidade.

Contudo, o futebol do Atlético de Madrid foi decaindo na mesma proporção que os investimentos foram crescendo, o que fez o Cholismo perder sua essência e o time, sem identidade, cair de rendimento em campo. Por este motivo, o clube hoje é caro, tecnicamente melhor no papel, porém incapaz de transformar esse talento em domínio, seja no cenário doméstico ou europeu.

Portanto, a chegada dos três novos reforços não significa que veremos o progresso do Atlético de Madrid, tendo em vista que essas contratações soam mais como tentativa de correção emergencial do que como continuidade de um plano sólido. Quer dizer, se reforçar no meio da temporada revela urgência, não convicção, e é neste ponto que o debate inevitavelmente recai sobre Diego Simeone.

Em todo o caso, uma suposta saída de Diego Simeone não é — e nunca foi — sequer questionada pelos torcedores, tampouco pela diretoria do Atlético de Madrid, dada a enorme idolatria de Cholo. Em contrapartida, uma avaliação do seu trabalho seria fundamental na forma de cobrança: por que a equipe não evolui mesmo em meio a chegada de diversos jogadores acima da média? Não se trata de apagar sua história nem seus méritos, mas de questionar sua capacidade atual de extrair o melhor de um plantel que já não corresponde ao Atleti físico, reativo e intenso que o consagrou.

Atualmente, os Colchoneros são mais técnicos, mais criativos e menos confortáveis dentro dos antigos padrões de Diego Simeone. Preso entre a identidade que abandonou e aquela que nunca consolidou, o Atlético de Madrid vive uma transição mal resolvida. A temporada ainda pode ser salva, mas o alerta está ligado: a Champions League virou questão de sobrevivência simbólica, e Simeone precisa provar capacidade de reinvenção. Afinal, o problema do clube será elenco, treinador ou projeto? Ou todos eles, convivendo mal há tempo demais?

No fim, o Atlético de Madrid chega a um ponto decisivo da sua trajetória recente. Ou transforma investimento em identidade e talento em funcionamento coletivo, ou seguirá preso a um ciclo de competitividade estéril, sempre perto, mas raramente suficiente. É preciso escolher um caminho — porque continuar estagnado, neste nível de gastos, já não é mais uma opção.

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