A montanha-russa do Real Madrid e o preço das escolhas equivocadas

A temporada 2025-2026 do Real Madrid é uma montanha-russa que parece não encontrar trilhos. Quando a equipe dá sinais de reação, a realidade a puxa de volta para o chão. A classificação dramática diante do Benfica nos playoffs da Champions League, após ter perdido a vaga direta justamente para os portugueses na fase de liga, parecia marcar um ponto de virada. Mas no futebol de alto nível, narrativa não sustenta desempenho. Dias depois, o modesto Getafe silenciou o Santiago Bernabéu. E ali, mais do que três pontos, o que se perdeu foi credibilidade.

A derrota frente o Getafe pelo placar mínimo quebrou uma sequência de 16 jogos de invencibilidade do Real Madrid contra o rival no Bernabéu. Foi também a primeira vitória de José Bordalás no estádio desde que assumiu o comando da equipe azulona. Em uma LaLiga onde cada detalhe pesa, a quarta derrota merengue após 26 rodadas mantém o clube quatro pontos atrás do Barcelona. Pode parecer administrável, com 36 pontos ainda em disputa, mas o contexto torna o cenário preocupante. Os comandados de Álvaro Arbeloa não dependem apenas de si. E isso, para a realeza da capital espanhola, é sempre desconfortável.

O dado mais alarmante talvez seja o desempenho como mandante. Duas das quatro derrotas sofridas na LaLiga aconteceram no Bernabéu, diante de Celta de Vigo e agora Getafe. O estádio que já foi símbolo de intimidação europeia e fortaleza doméstica tornou-se palco de insegurança. O Real Madrid não perdia dois jogos consecutivos no campeonato desde 2019. A derrota anterior havia sido para o Osasuna. Agora, a equipe demonstra fragilidade estrutural. Não é apenas uma questão de resultado, mas de identidade.

A demissão de Xabi Alonso, no meio da temporada, foi tratada como solução emergencial. Ele era apontado como o grande responsável pela irregularidade do Real Madrid. No entanto, sua saída não corrigiu os vícios coletivos. Ao contrário, escancarou que os problemas são mais profundos. O ex-treinador era apenas a face visível de um projeto mal calibrado. O fantasma não estava no banco, mas na construção do elenco e nas decisões institucionais. E isso pesa ainda mais quando falamos de um clube acostumado a ditar tendências.

Contra o Getafe, o roteiro era previsível. José Bordalás montou uma equipe compacta, reativa, física, agressiva na marcação. Em seis minutos, sete faltas cometidas. Era o sinal claro do que viria. O Real Madrid teve a bola, mas não teve lucidez. Dos três chutes do Getafe no jogo, um entrou. Eficiência fria. Do outro lado, David Soria realizou sete defesas, mas também contou com a pouca criatividade merengue. O primeiro tempo foi pobre. No segundo, o desespero substituiu o plano.

Álvaro Arbeloa, treinador interino, ainda não demonstrou estatura para o cargo. Terminar a partida com cinco atacantes é mais um ato de desorganização do que de coragem. Faltou coordenação, faltou leitura estratégica, faltou maturidade. O Real Madrid é um clube que exige autoridade tática. Não basta conhecer o escudo; é preciso sustentar o peso dele. E o jovem treinador de 43 anos de idade, por enquanto, parece engolido na função. A camisa branca não perdoa improvisos.

Enquanto isso, o Barcelona constrói sua campanha com consistência doméstica. Das quatro derrotas catalãs, todas aconteceram fora de casa. Em seus domínios, 13 jogos, 13 vitórias. Cem por cento de aproveitamento. É a regularidade que sustenta títulos. O contraste com o Real Madrid é evidente. A diferença de quatro pontos ganha proporção psicológica. Não é apenas matemática; é estabilidade contra oscilação. E campeonatos longos premiam equilíbrio.

As ausências agravam o cenário. Kylian Mbappé, artilheiro da La Liga com 23 gols, está fora por problema no tornozelo. Sua ausência retira profundidade, aceleração e definição. Jude Bellingham também ficou de fora do último compromisso. Lesões e suspensões desmontam qualquer tentativa de continuidade. Franco Mastantuono expulso, Álvaro Carreras e Dean Huijsen suspensos. O plantel parece curto para a ambição que carrega. E a temporada começa a cobrar planejamento.

A próxima rodada reserva visita ao Balaídos, contra um Celta competitivo, sexta colocado na LaLiga, dono da quarta melhor defesa do campeonato. O outro oponente além do Getafe que já venceu o Real Madrid no Bernabéu. Jogar na Galícia nunca foi simples. Agora, torna-se ainda mais delicado. O ambiente externo pressiona, o interno vacila. O Merengues entrarão em campo com dúvidas. E quando a dúvida se instala, o futebol costuma ser impiedoso.

Como se não bastasse, a Champions League impõe um novo teste. Manchester City no horizonte, oitavas-de-final, no próprio Bernabéu. Sem Mbappé, possivelmente sem força máxima. O torneio onde o Real Madrid construiu sua mística, sua aura quase mitológica. O clube das 15 conquistas europeias sempre encontrou forças onde outros sucumbiram. Entretanto, mística não substitui organização. História inspira, mas não corre.

A eliminação precoce na Copa do Rei, diante do Albacete, na estreia de Álvaro Arbeloa, já havia deixado sinais claros. Um clube do tamanho do Real Madrid não pode normalizar derrotas para adversários da segunda divisão. Não pode tratar tropeços como acidentes isolados. Quando eles se acumulam, deixam de ser exceção. Tornam-se padrão. E o padrão atual é pra lá de preocupante.

O Real Madrid carrega o título de “Real” desde 1920, concedido pelo rei Alfonso XIII. Representa simbolicamente a realeza da capital espanhola. Mas realeza exige postura, estratégia, visão de longo prazo. O Santiago Bernabéu, palco de tantas remontadas épicas, hoje observa uma equipe desconectada de sua tradição competitiva. O problema não é perder. O problema é não convencer.

O presidente Florentino Pérez sempre foi visto como arquiteto de ciclos vitoriosos. Galácticos, reestruturação financeira, protagonismo global. Todavia, decisões recentes levantam questionamentos. A montagem do elenco, a troca precipitada de comando técnico, a falta de equilíbrio estrutural. O Real Madrid não está apenas vivendo uma fase ruim. Está enfrentando as consequências de escolhas estratégicas equivocadas. E, se não reagir rapidamente, poderá ver a segunda temporada consecutiva escorrer por entre os dedos sem títulos.

Ainda restam 12 rodadas. Ainda há Champions League. No entanto, a margem de erro desapareceu. O Real Madrid precisa reencontrar sua identidade antes que o título da LaLiga se torne apenas uma lembrança distante. A montanha-russa segue em movimento. Resta saber se o clube conseguirá retomar o controle dos trilhos — ou se a temporada 2025-26 ficará marcada como aquela em que a realeza perdeu o próprio trono.

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