Com Neymar e mais 25, a Copa de 2026 começou para a Seleção Brasileira

A convocação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 2026 começou cercada de oba-oba, espetáculo midiático e uma sensação de que a Confederação Brasileira de Futebol ainda não aprendeu absolutamente nada com os erros do passado.

Em um evento promovido no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, a CBF transformou aquilo que deveria ser apenas o anúncio de uma lista de 26 jogadores em um verdadeiro show de entretenimento. Celebridades foram convidadas, holofotes foram acesos e até o apresentador Luciano Huck apareceu no local, sem que ninguém entendesse exatamente o motivo da sua presença. Em vez de transmitir seriedade, concentração e foco total na Copa do Mundo, a imagem passada pela entidade foi justamente a contrária. A Seleção Brasileira começou sua caminhada no Mundial de forma barulhenta, teatral e desnecessariamente festiva. E isso, sinceramente, preocupa.

O mais curioso é que a própria história recente da Seleção Brasileira já mostrou inúmeras vezes que esse tipo de ambiente costuma terminar mal. Em 2006, por exemplo, o Brasil viveu um verdadeiro carnaval durante a preparação para a Copa da Alemanha. Os pentacampeões mundiais pareciam mais preocupados com festas, publicidade e glamour do que propriamente com futebol. O resultado foi um fracasso enorme diante da França nas quartas-de-final.

Depois daquele trauma, a CBF apostou em Dunga para reorganizar a casa. E embora Dunga tivesse limitações evidentes como treinador, algo precisa ser reconhecido: ele blindou completamente a Seleção Brasileira do circo midiático. Em 2010 havia disciplina, silêncio e foco. Talvez faltasse talento dentro de campo, mas sobrava organização fora dele. Exatamente o contrário do que vimos agora nesse evento promovido pela CBF antes da Copa de 2026.

É verdade que Carlo Ancelotti não pode ser responsabilizado sozinho pelo espetáculo armado pela entidade tupiniquim. Afinal, a CBF adora transformar tudo em produto de entretenimento. No entanto, é impossível ignorar que o técnico italiano sabia perfeitamente onde estava entrando. Ele conhece o peso de uma Copa do Mundo, a pressão que envolve a camisa da Seleção Brasileira e certamente poderia ter vetado esse tipo de exposição exagerada. Bastava anunciar a lista de convocados de maneira simples e objetiva, como praticamente todas as outras seleções fizeram. Mas não. Preferiu participar do evento, aceitar a festa e permitir que o início da caminhada do Brasil rumo ao Mundial fosse marcado por um clima de oba-oba absolutamente incompatível com o tamanho do desafio que vem pela frente.

E como toda convocação de Copa do Mundo, a lista apresentada por Carlo Ancelotti veio recheada de polêmicas, questionamentos e escolhas bastante discutíveis. Começando pelos goleiros, a principal surpresa foi a presença de Weverton, do Grêmio. O detalhe mais curioso é que ele havia deixado o Palmeiras justamente por perder espaço para Carlos Miguel. Ainda assim, Ancelotti decidiu levá-lo como terceiro goleiro atrás de Alisson e Éderson. Dessa forma, o Brasil repetirá exatamente o mesmo trio do Mundial de 2022. A ausência de Bento acabou sendo consequência direta da falha grotesca cometida recentemente em partida do Al-Nassr contra o Al-Hilal, na Arábia Saudita. No futebol de seleção, especialmente às vésperas de uma Copa, erros pesam demais. E o ex-jogador do Athletico Paranaense pagou caro por isso.

No setor defensivo, as escolhas também chamaram bastante atenção. As convocações de Danilo e Alex Sandro, ambos do Flamengo, evidencia de forma clara e evidente a enorme carência de laterais de alto nível. Hoje, talvez essa seja uma das posições mais frágeis do futebol nacional. Não à toa, a tendência é que o zagueiro Roger Ibañez atue improvisado na direita, da mesma forma que ocorreria com o titular Éder Militão, cortado da Copa do Mundo em virtude de uma lesão.

Pelo lado esquerdo, Douglas Santos aparece como provável titular para maior apoio ao ataque. Já a dupla de zaga deve ser formada por Marquinhos e Gabriel Magalhães, dois jogadores que vivem grande fase no futebol europeu. O problema é que o equilíbrio defensivo do Brasil dependerá muito do funcionamento coletivo, porque individualmente esse sistema ainda transmite algumas inseguranças. Principalmente nas laterais. E em Copas do Mundo, qualquer fragilidade costuma ser punida de maneira cruel.

Se a defesa gera dúvidas, o meio-campo talvez seja o setor mais questionável dessa convocação. Carlo Ancelotti levou apenas cinco meio-campistas, algo extremamente arriscado para uma competição longa e desgastante como uma Copa do Mundo. O treinador claramente priorizou atacantes e pontas, deixando o setor de criação e sustentação bastante enxuto. E algumas escolhas realmente são difíceis de compreender. A convocação de Fabinho, por exemplo, parece injustificável neste momento. O volante caiu muito de rendimento no futebol saudita e está longe de viver sua melhor fase. Enquanto isso, nomes como João Gomes, do Wolverhampton, ficou de fora mesmo realizando temporadas muito superiores em termos de intensidade, regularidade e desempenho competitivo.

Outro nome que faz enorme falta nessa lista é Joelinton. O jogador do Newcastle vive uma excelente fase há bastante tempo e oferece exatamente características que o meio-campo brasileiro atualmente não possui: força física, imposição, marcação agressiva e chegada na área adversária. Além dele, André, também do Wolverhampton, parecia ter espaço garantido nessa convocação pela consistência apresentada ao longo da temporada. Até mesmo Gerson, atualmente no Cruzeiro, parecia merecer mais oportunidades do que Lucas Paquetá, que atravessa um momento técnico bastante irregular. São escolhas que inevitavelmente geram questionamentos, especialmente porque o setor de meio-campo costuma decidir Mundiais.

No ataque, Carlo Ancelotti preferiu apostar em juventude, velocidade e jogadores de um contra um. A principal surpresa foi a permanência definitiva de Endrick entre os convocados. O jovem atacante ganhou espaço nas últimas listas e confirmou presença na Copa do Mundo devido ao bom futebol praticado no empréstimo ao Lyon. Outro nome que apareceu foi Rayan, recentemente contratado pelo Bournemouth, numa convocação que até pode ser entendida como aposta de futuro.

Em contrapartida, fica impossível ignorar a ausência de João Pedro. Mesmo em uma temporada pra lá de decepcionante do Chelsea, o atacante balançou as redes 15 vezes e foi eleito o melhor jogador dos Blues no período, estando em alta no futebol inglês, a julgar pelo interesse do Barcelona em contratá-lo. Contudo, ele acabou ignorado por Carlo Ancelotti, muito provavelmente por conta das más atuações nos amistosos contra França e Croácia, numa das decisões mais questionáveis dessa convocação.

Outro debate inevitável envolve Gabriel Martinelli. Embora seja um jogador útil taticamente, ele sequer é titular do Arsenal. Enquanto isso, Antony vive talvez o melhor momento da carreira desde que chegou ao Betis. O brasileiro reencontrou seu futebol clube andaluz, voltou a ser decisivo e apresentou atuações muito mais consistentes. Em termos puramente técnicos e de fase atual, ele parecia estar à frente de Martinelli. Mas Carlo Ancelotti optou por manter um perfil mais coletivo e disciplinado na parte tática. É uma escolha compreensível sob certo aspecto, mas que com certeza continuará sendo debatida até o início da competição.

E então chegamos ao grande nome dessa convocação: Neymar. Era impossível ser diferente. O momento em que Carlo Ancelotti pronunciou o nome do camisa 10 foi recebido com enorme euforia pelos convidados presentes no Museu do Amanhã. E sinceramente? Caso Neymar não estivesse na lista, a sensação era de que o treinador italiano seria imediatamente vaiado naquele ambiente montado pela própria CBF. O nome de Neymar vinha sendo preparado emocionalmente desde os amistosos recentes do Brasil nos Estados Unidos. Tudo indicava que sua convocação já fazia parte do roteiro montado pela entidade. E agora, aos 34 anos, o jogador do Santos disputará sua quarta Copa do Mundo vestindo a Amarelinha.

A grande questão é que Neymar chega novamente cercado por expectativas gigantescas. Em 2014, sofreu a grave lesão nas quartas-de-final. Em 2018 e 2022, caiu nas quartas sob o comando de Tite. Entre esses fracassos, o Brasil ainda carregou o trauma eterno do inesquecível 7 a 1 sofrido contra a Alemanha na semifinal do Mundial de 2014. Caso não conquiste o título em 2026, a Seleção Brasileira completará impressionantes 24 anos sem vencer uma Copa do Mundo. Um jejum gigantesco para a maior campeã da história do futebol. Isso ajuda a explicar a verdadeira comoção nacional que presenciamos em torno da convocação do camisa 10, tendo em vista que sem ele a atual geração não passa a mínima confiança aos torcedores

Deste modo, o sentimento deixado por essa convocação é bastante contraditório. Existe qualidade individual, talento ofensivo e um treinador absolutamente vencedor no comando técnico. Carlo Ancelotti conhece o futebol como poucos e tem currículo suficiente para despertar esperança no torcedor brasileiro. Porém, ao mesmo tempo, o ambiente criado pela CBF passa uma sensação perigosa de desorganização emocional, excesso de marketing e pouca seriedade institucional. O Brasil começou a Copa do Mundo de 2026 muito mais preocupado em transformar o anúncio da lista de convocados em espetáculo do que propriamente em transmitir foco competitivo. E isso, historicamente, nunca foi um bom sinal.

A verdade é que a caminhada brasileira rumo ao hexacampeonato começou cercada por dúvidas, polêmicas e uma atmosfera que lembra mais entretenimento do que futebol. Talvez tudo isso desapareça quando a bola rolar, no caso, se Carlo Ancelotti conseguir blindar o grupo internamente e transformar o talento individual em um time competitivo. Todavia, o primeiro passo dado pela Seleção Brasileira rumo à Copa de 2026 definitivamente não foi o ideal. O Brasil começou sua jornada de maneira errada, em meio a flashes, celebridades e um oba-oba totalmente desnecessário. Agora resta saber como essa história terminará dentro das quatro linhas.

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