No artigo publicado ontem (13) aqui no SoccerBlog, cujo tema foi a conquista da Supercopa por parte do Barcelona, já dizíamos que o título da competição de menor relevância do futebol espanhol não empolgava tanto o vencedor mas era capaz de conturbar o ambiente do perdedor — o equivalente aos Estaduais para nós, no Brasil.
Não à toa, a derrota por 3 a 2 diante do Barcelona resultou na queda de Xabi Alonso em pleno mês de janeiro, uma demissão que embora surpreendente, não causou surpresa. Na realidade, também já afirmávamos aqui, seja através do Blog, seja por intermédio dos vídeos no nosso canal do YouTube, que a Supercopa seria o verdadeiro teste de fogo para garantir a sobrevivência, ou não, do ex-treinador do Bayer Leverkusen no Real Madrid.
À vista disso, é inegável que o Real Madrid precisava de um fato concreto para promover a saída de Xabi Alonso, e o segundo vice consecutivo na Supercopa frente o maior rival serviu perfeitamente para que isso se concluísse, afinal diversos eram os indícios de que o treinador espanhol não tinha mais clima para seguir no Santiago Bernabéu, a começar pelo desentendimento junto ao craque Vinícius Júnior no primeiro El Clásico da temporada, quando o camisa 7 o desrespeitou por ter sido substituído e, ainda assim, o clube permaneceu ao lado do atleta. Ou seja, uma clara demonstração de que ele não tinha o respaldo da diretoria.

A reclamação pública de Federico Valverde por atuar improvisado como lateral-direito também demonstrava que o estrelado vestiário madridista não se mostrava dividido com o trabalho de Xabi Alonso, o que é fruto da má gestão de grupo do jovem treinador de 44 anos de idade, em especial no que diz respeito ao controle de minutos dos jogadores, a exemplo de Franco Mastantuono, que iniciou a temporada como uma das principais peças no time titular e, do nada, perdeu espaço nos últimos meses. Ademais, o mesmo se estende a Arda Guler.
Em contrapartida, é óbvio que a insatisfação do plantel não era unânime e, certamente, um dos jogadores que apoiavam Xabi Alonso era o principal destaque do Real Madrid na temporada, Kylian Mbappé, artilheiro e líder de participação em gols dos Merengues, que evoluiu ainda mais sob o comando do sucessor de Carlo Ancelotti, a julgar pelos com 29 gols e quatro assistências do atacante francês, ao longo das 25 aparições no período.
| Real Madrid | Xabi Alonso |
| Jogos | 34 |
| V-E-D | 24-4-6 |
| Gols Marcados (média) | 72 (2,12) |
| Gols Sofridos (média) | 38 (1,12) |
| Aproveitamento | 74,5% |
Logo, a estremecida relação com os jogadores colaborou demasiadamente para que as ideias de Xabi Alonso não emplacassem no Real Madrid, tendo em vista que a filosofia de jogo que ele gostaria de implementar no time espanhol não foi vista em momento algum, isto é, um futebol baseado na intensidade, forte marcação em linha alta, pressão na recuperação pós-perda de bola, além do controle através da posse de bola, tudo isso jogando no 3-4-2-1 durante a fase ofensiva, e no 5-4-1 na defensiva.
Em outras palavras, um modelo similar ao do Bayer Leverkusen, campeão da tríplice coroa alemã com Xabi Alonso há dois anos. Aliás, isso explica porque ele disse na primeira entrevista concedida como treinador do Real Madrid que esperava um futebol elétrico no estilo Rock and roll, quer dizer, uma abordagem completamente oposta em comparação aos antecessores Zinedine Zidane e Carlo Ancelotti, ambos adeptos do 4-3-3, priorizando mais o lado defensivo e rápidas transições.
Deste modo, sem jogadores com o perfil necessário para fazer a engrenagem funcionar, Xabi Alonso precisou se adaptar ao Real Madrid, tanto é que ele armou a defesa com uma linha de quatro homens na grande maioria dos jogos por não ter zagueiros construtores como nos tempos de Bayer Leverkusen, com Odilon Kossounou, Edmond Tapsoba e Piero Hincapié, nenhum volante líder, destruidor e criador de jogadas igual a Granit Xhaka, tampouco alas agudos como Jeremie Frimpong e Alejandro Grimaldo, e meias capazes de ajudar tanto na defesa quanto no ataque, como eram os casos de Florian Wirtz e Jonas Hofmann.

Como resultado, Xabi Alonso deixou o Real Madrid após míseros 34 jogos e, detalhe: assinalando exatamente o mesmo número de triunfos, empates e reveses de Hansi Flick no mesmo recorte de partidas à frente do Barcelona. Portanto, um claro sinal de que a cúpula diretiva madridista, definitivamente, não confiava no treinador, algo que se constata também ao levarmos em consideração que ele se despediu do clube registrando uma elevada média de 70,6% de taxa de vitórias, nada menos que a quinta maior até hoje.
Seja como for, ao mesmo tempo que a saída de Xabi Alonso foi anunciada, o Real Madrid informou que Álvaro Arbeloa será o seu substituto até o término da temporada. Assim, os Merengues repetem o mesmo movimento feito há exatos dez anos. Na ocasião, Zinedine Zidane era promovido de forma interina subindo como uma aposta do RM Castilla, também no mês de janeiro, para assumir o posto de Rafa Benítez. O final da história todos nós sabemos!
Comunicado Oficial: Álvaro Arbeloa.
— Real Madrid C.F. (@realmadrid) January 12, 2026
Decerto, Álvaro Arbeloa tem a seu favor o calendário tranquilo do Real Madrid até meados de fevereiro com enfrentamentos ante Albacete, pelas oitavas-de-final da Copa do Rei, Levante, Villarreal, Rayo Vallecano e Valencia, todos pela LaLiga, além das duas rodadas finais da fase de liga da Champions League contra o Monaco, no Santiago Bernabéu, e a visita ao Benfica na capital portuguesa.
E curiosamente, Álvaro Arbeloa foi apresentado como novo reforço do Real Madrid junto com Xabi Alonso em 24 de agosto de 2009, os dois vindos do Liverpool naquela oportunidade. Foram cinco anos defendendo as cores do clube, marcados por uma estreita amizade envolvendo até familiares, bem como pelas conquistas de importantes títulos, dentre os quais se destaca a Champions League na temporada 2013-14. Todavia, ontem a trajetória dos ex-companheiros também de seleção espanhola foi interrompida de maneira bastante precoce em Valdebebas.
Sim, o futebol é, por vezes, cruel e isento de compaixão, de modo que até a agenda do Real Madrid foi avaliada para definir a demissão de Xabi Alonso, que dá adeus ao Santiago Bernabéu muito menor do que quando chegou no começo da temporada, e cedendo o lugar ao amigo que terá a primeira chance de assumir um grande time fora das quatro linhas.