Em 2017, foi a Suécia. Quatro anos depois, a Macedônia do Norte. Desta vez, a carrasca atende pelo nome de Bósnia e Herzegovina, apenas a 71ª colocada no ranking mundial, responsável por eliminar a seleção italiana na repescagem das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026.
Pois é, um novo golpe, mais um capítulo de um roteiro que parecia impensável há pouco mais de uma década. A Azzurra, tetracampeã mundial, agora acumula ausências que já não cabem mais na categoria de acidente. Trata-se de uma sequência que escancara uma transformação profunda. Um abismo de longos 12 anos sem disputar um Mundial. E quando olhamos esse cenário com frieza, a conclusão é inevitável: a Itália deixou de ser exceção e passou a ser ausência recorrente.
É impressionante observar como a percepção mudou ao longo do tempo. A primeira ausência foi tratada como um acidente de percurso, algo fora da curva. A segunda já levantou questionamentos mais profundos, mas ainda assim envolta em certo grau de incredulidade. Porém, a terceira elimina qualquer margem para ilusão. Agora não se trata mais de coincidência, tampouco de fatalidade. Trata-se de uma realidade consolidada. Uma queda estrutural que vai muito além de um jogo ou de uma geração específica. A camisa pesa, a história impõe respeito, mas o presente já não responde à altura. E no futebol de elite, tradição sem desempenho é apenas memória.
Para os italianos mais velhos, isso soa como um trauma interminável. Para os mais jovens, uma normalidade inquietante. Há uma geração inteira que simplesmente nunca viu a Itália disputar uma Copa do Mundo. E se a classificação só vier em 2030, estaremos falando de 16 anos de ausência. Um intervalo que muda completamente a relação emocional de um país com sua seleção. O que antes era rotina se torna expectativa distante. O que antes era orgulho natural, hoje precisa ser reconstruído. E isso diz muito sobre a profundidade da crise.

A última imagem da Itália em uma Copa do Mundo remonta a 2014, no Brasil. Naquele momento, sob o comando de Cesare Prandelli, a Azzurra se despediu ainda na fase de grupos após derrota para o Uruguai, com gol de Diego Godín na Arena das Dunas. Um jogo que, à época, já representava frustração, mas que hoje ganha contornos ainda mais pesados. Porque aquela eliminação não foi o fundo do poço, mas sim o início de um ciclo de declínio. E quando revisitamos aquela escalação, percebemos que poucos nomes ainda seguem em atividade. O tempo passou, e com ele, a capacidade de reposição também se perdeu.
Naquele Mundial, a Itália caiu em um grupo que, em teoria, não era dos mais complicados, com Uruguai, Costa Rica e Inglaterra. Inclusive, venceu os ingleses na estreia, o que dava sinais de competitividade. Mas o desempenho ao longo da fase de grupos revelou fragilidades importantes. E mais do que isso, expôs problemas estruturais que seriam agravados nos anos seguintes. A partir dali, a seleção tetracampeã do mundo entrou em um ciclo de instabilidade que nunca mais foi completamente corrigido. O que veio depois foram eliminações traumáticas e uma crescente perda de identidade.
Grande parte desse cenário está diretamente ligada à desorganização da Federação Italiana de Futebol (FIGC). A falta de um projeto sólido de desenvolvimento nas categorias de base comprometeu a renovação do elenco. A Itália passou a revelar menos jogadores, perdeu competitividade na formação e, como consequência, viu sua seleção principal sofrer com escassez de talento. A ponto de recorrer à naturalização de atletas como solução emergencial. Um recurso que, por si só, já evidencia o tamanho do problema. Porque quando uma potência histórica precisa importar identidade, algo está profundamente errado.
E é importante deixar claro: não é necessário ter Roberto Baggio, Francesco Totti ou Alessandro Del Piero para superar a Bósnia numa repescagem de Eliminatórias. A questão vai muito além da ausência de craques históricos. Trata-se também de um problema coletivo, tático e de ideia de jogo. A Itália até continua produzindo bons treinadores, como Francesco Farioli, Raffaele Palladino, Vincenzo Italiano e Simone Inzaghi, além de referências como Carlo Ancelotti e Antonio Conte. Mas a seleção não consegue traduzir essa riqueza em campo. Há um desalinhamento claro entre o que se produz nos clubes e o que se pratica na equipe nacional.

A escolha por replicar modelos de sucesso recentes, como o sistema com três zagueiros utilizado pela histórica Juventus eneacampeã italiana, e nos dias atuais pela Inter de Milão, acabou se tornando uma armadilha. O 3-5-2 exige características muito específicas, especialmente no ataque. Jogadores como Lautaro Martínez e Marcus Thuram conseguem potencializar esse sistema. A Itália, não. E quando se tenta reproduzir um modelo sem ter as peças ideais, o resultado é previsibilidade. Falta criatividade, falta improviso, falta aquele jogador capaz de quebrar linhas. E o jogo se torna mecânico, facilmente neutralizado por adversários mais organizados.
Mesmo com um meio-campo tecnicamente interessante, formado por nomes como Manuel Locatelli, Nicolò Barella e Sandro Tonali, a equipe não consegue dar o salto de qualidade necessário. Porque falta o maestro. Falta aquele jogador capaz de ditar o ritmo, de controlar o tempo do jogo, de criar a partir do caos. O coletivo até funciona em determinados momentos, mas esbarra na limitação individual. E no futebol moderno, especialmente em jogos decisivos, essa diferença pesa. E pesa muito.
As escolhas no comando técnico também tiveram papel determinante nesse cenário. A passagem de Luciano Spalletti, embora curta, ainda apresentava alguma coerência de ideia. Ele assumiu após a saída surpreendente de Roberto Mancini, campeão da Euro 2020, e tentou dar continuidade a um projeto. Mas a e eliminação na Liga das Nações e a derrota pesada para a Noruega fragilizaram sua posição. O ciclo foi interrompido cedo demais. E, mais uma vez, a Itália optou por recomeçar em vez de ajustar.

A chegada de Gennaro Gattuso simboliza bem essa mudança de direção. A aposta foi muito mais emocional do que racional. Um ídolo, um nome forte, alguém capaz de resgatar a competitividade. Mas intensidade sem estrutura não sustenta projeto. E os números falam por si. Diante de adversários mais frágeis, os resultados até vieram. Mas nos jogos decisivos, contra seleções mais organizadas, a Itália falhou. A goleada por 4 a 1 sofrida para a Noruega em pleno San Siro é um retrato claro disso. E contra a própria Bósnia, a incapacidade de vencer selou o destino.
A ideia da Federação, liderada por Gabriele Gravina e com o apoio de Gianluigi Buffon, era resgatar o espírito combativo. Algo semelhante ao que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) tentou ao apostar em Dunga no passado. Mas o futebol exige muito mais do que motivação. Exige organização, leitura de jogo, adaptação. E nesse aspecto, Gennaro Gattuso ficou aquém. Sua limitação tática acabou sendo determinante. E embora não seja possível afirmar que com Luciano Spalletti o desfecho seria diferente, é razoável dizer que as chances de classificação seriam maiores.
Com a eliminação confirmada, a Itália já inicia um novo processo de reconstrução. Gabriele Gravina e Gianluigi Buffon deixaram seus cargos, Gennaro Gattuso não permanecerá, e a Federação busca um nome experiente para liderar o próximo ciclo. Entre os favoritos, surgem nomes como Massimiliano Allegri, Antonio Conte, Gian Piero Gasperini e até mesmo um possível retorno de Roberto Mancini. O objetivo é claro: reconstruir a identidade e preparar a Azzurra para 2030. Mas o desafio vai muito além da escolha de um treinador.
Porque, no fim das contas, o sinal mais preocupante não é a eliminação em si. É a naturalização dela. A Itália já não surpreende mais ao ficar fora de uma Copa do Mundo. E isso, talvez, seja o maior sintoma da crise. Um país que já foi sinônimo de tradição, de solidez defensiva, de competitividade máxima, hoje busca se reencontrar. E enquanto essa reconexão não acontece, a seleção italiana segue distante do lugar que um dia foi seu por direito: o topo do futebol mundial.