Uruguai decepciona e está perto de uma eliminação histórica na Copa de 2026

A terceira Copa do Mundo de Marcelo Bielsa, a primeira no comando da Celeste Olímpica, pode entrar para a história como a campanha mais decepcionante do treinador argentino em Mundiais. Diferentemente do que ocorreu com a Argentina em 2002 e com o Chile em 2010, quando suas seleções ao menos demonstraram competitividade diante de adversários de alto nível, o Uruguai corre sério risco de se despedir ainda na fase de grupos do Mundial de 2026. Um cenário que poucos imaginavam quando os uruguaios desembarcaram nos Estados Unidos para a disputa do torneio.

Pois é, e o mais curioso é que o próprio Marcelo Bielsa já havia anunciado, antes mesmo da competição começar, que deixaria o cargo após o Mundial. Ainda assim, a expectativa em torno do trabalho de El Loco era enorme. Afinal, estamos falando de um dos treinadores mais influentes do futebol sul-americano nas últimas décadas, responsável por revolucionar conceitos táticos e inspirar gerações de técnicos. Sua chegada ao Uruguai foi recebida com entusiasmo pela torcida, que acreditava estar diante do comandante ideal para recolocar a Celeste Olímpica entre as principais forças do mundo da bola. Os primeiros meses de trabalho reforçaram ainda mais essa sensação positiva, alimentando sonhos cada vez maiores.

Ao longo dos três anos em que Marcelo Bielsa esteve à frente da Celeste, os uruguaios viveram uma verdadeira montanha-russa de emoções. Houve momentos extremamente animadores, principalmente no segundo semestre de 2023, quando os charruas apresentaram um futebol intenso, agressivo e envolvente. Naquele período, o Uruguai derrotou adversários de peso como Brasil e Argentina, dando a impressão de que uma nova potência sul-americana estava surgindo. A intensidade da marcação e a velocidade das transições ofensivas encantaram torcedores e especialistas.

Os resultados também ajudavam a sustentar o otimismo. O Uruguai terminou as Eliminatórias Sul-Americanas na quarta colocação, garantindo sua vaga na Copa do Mundo sem maiores sustos. Além disso, conquistou a terceira colocação na Copa América de 2024, desempenho considerado bastante positivo diante da concorrência enfrentada. Tudo parecia apontar para uma evolução gradual da Celeste, que chegaria ao Mundial em condições de disputar as fases mais avançadas do torneio.

Entretanto, o cenário começou a mudar drasticamente. O desempenho coletivo caiu de maneira preocupante e os resultados deixaram de aparecer. Entre julho de 2024 e junho de 2025, o Uruguai venceu apenas uma partida em doze disputadas. Ainda mais impressionante foi o número de empates sem balançar as redes nesse período. Foram nove jogos terminando em 0 a 0, uma estatística que evidenciava a enorme dificuldade dos uruguaios para criar oportunidades e transformar posse de bola em chances reais de gol.

A crise ganhou proporções ainda maiores em novembro do ano passado. Na ocasião, o Uruguai sofreu uma goleada por 5 a 1 diante dos Estados Unidos, resultado que abalou profundamente a confiança dos torcedores. Pela primeira vez, a continuidade de Marcelo Bielsa passou a ser questionada de maneira mais intensa. O treinador de 70 anos de idade parecia incapaz de encontrar soluções para os problemas ofensivos da seleção uruguaia, enquanto o ambiente interno começava a apresentar sinais claros de desgaste.

Além dos problemas dentro de campo, Bielsa também enfrentou dificuldades nos bastidores. O treinador entrou em rota de colisão com algumas das principais lideranças do elenco. Nomes importantes, como Federico Valverde, passaram a conviver com rumores de desgaste na relação com a comissão técnica. Paralelamente, Luis Suárez encerrou seu ciclo na seleção, aumentando ainda mais a sensação de que uma era estava chegando ao fim sem que uma nova geração estivesse totalmente preparada para assumir o protagonismo.

Curiosamente, a esperança voltou a crescer pouco antes da Copa do Mundo. Nos amistosos realizados em março de 2026, o Uruguai empatou em 1 a 1 com a Inglaterra e segurou um empate sem gols contra a Argélia. Embora os resultados não fossem espetaculares, o desempenho defensivo e a organização coletiva transmitiram a impressão de que os uruguaios estavam recuperando parte da sua competitividade. Muitos acreditaram que Marcelo Bielsa havia encontrado o equilíbrio necessário para fazer uma boa campanha no Mundial.

Mas bastaram os primeiros jogos da Copa para que o entusiasmo desaparecesse rapidamente. O futebol intenso, agressivo e envolvente que marcou os primeiros meses do trabalho de Marcelo Bielsa simplesmente não apareceu. O Uruguai se mostrou uma seleção lenta, previsível e extremamente limitada na construção das jogadas. A circulação da bola era pouco eficiente e os atacantes raramente recebiam condições favoráveis para finalizar. O que se viu foi um time distante daquele que havia encantado a América do Sul há três anos.

É verdade que o modelo de jogo de Marcelo Bielsa exige enorme comprometimento físico dos atletas. Sua filosofia é baseada em pressão constante, marcações individuais e recuperação rápida da posse de bola. No entanto, para que esse sistema funcione, é necessário que todos os jogadores estejam em alto nível físico e mental. O problema é que o Uruguai não conseguiu reproduzir essa intensidade dentro de campo. Em muitos momentos, a Celeste pareceu sem ritmo, desorganizada e incapaz de executar os conceitos que fizeram a fama do treinador argentino.

A estreia contra a Arábia Saudita já foi um enorme sinal de alerta. Embora enfrentasse uma seleção tecnicamente inferior, o Uruguai não conseguiu impor seu favoritismo. O empate por 1 a 1 deixou a sensação de que algo estava profundamente errado. Os pupilos de Marcelo Bielsa controlaram o ritmo da partida, criaram oportunidades, mas além de não converterem as chances geradas também sofreram defensivamente em alguns momentos. O resultado foi recebido com preocupação, porém ainda havia confiança de que a situação poderia ser corrigida na rodada seguinte.

Percebendo os problemas apresentados na estreia, Marcelo Bielsa promoveu mudanças profundas para o confronto diante de Cabo Verde. Darwin Núñez deixou a equipe titular, Matías Viña também foi sacado e o treinador alterou completamente o sistema tático. O 4-2-3-1 utilizado contra os sauditas deu lugar a um 4-1-4-1, numa tentativa clara de encontrar soluções para os problemas de criação. Era uma demonstração de que nem mesmo El Loco estava satisfeito com o desempenho apresentado pelo Uruguai.

Apesar das alterações, o resultado foi igualmente decepcionante. O Uruguai chegou a marcar duas vezes, saiu ao intervalo vencendo de virada, mas não conseguiu sustentar a vantagem diante da modesta seleção africana. O empate por 2 a 2 praticamente selou o destino da Celeste na competição. Além do prejuízo matemático, o desempenho voltou a ser pobre em diversos aspectos do jogo. Faltou criatividade, faltou poderio ofensivo, faltou qualidade para definir uma partida que teoricamente deveria estar ao alcance dos uruguaios.

Agora, o Uruguai chega à última rodada precisando derrotar a Espanha para continuar sonhando com uma vaga nos 16 avos-de-final. Trata-se de uma missão extremamente complicada, especialmente considerando tudo o que foi apresentado até aqui. Se contra Arábia Saudita e Cabo Verde os uruguaios encontraram enormes dificuldades, imaginar uma atuação dominante diante da atual campeã europeia, apontada como uma das seleções mais fortes do mundo, parece um exercício de otimismo exagerado.

Mais preocupante do que uma eventual eliminação é a sensação de estagnação que acompanha o futebol uruguaio nos últimos anos. A geração que encantou o mundo na Copa de 2010, terminando entre as quatro melhores seleções do planeta, nunca encontrou uma sucessão à altura. Aquela equipe possuía jogadores experientes, talentosos e acostumados a competir em alto nível. Hoje, embora existam atletas de qualidade, a impressão é que o Uruguai perdeu parte da identidade competitiva que sempre caracterizou sua história.

Caso o adeus seja confirmado, a despedida de Marcelo Bielsa acontecerá de forma melancólica. Um treinador que chegou cercado de expectativas deixará a Celeste Olímpica sem conseguir transformar potencial em resultados concretos. O Uruguai iniciou esse ciclo acreditando que poderia voltar a brigar entre as principais seleções do mundo, mas termina a Copa de 2026 diante da possibilidade de uma eliminação precoce. Um desfecho doloroso para a seleção bicampeã mundial e uma enorme decepção para uma torcida que sonhava muito mais.

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