Depois de uma temporada melancólica, os Rossoneri apostam no treinador português e reformulam o elenco para recuperar espaço entre os protagonistas do futebol europeu.
De alegre, a segunda passagem de Massimiliano Allegri pelo Milan não teve praticamente nada. Faltaram a segurança defensiva, a regularidade e, principalmente, a capacidade de administrar resultados que sempre caracterizaram os trabalhos do novo treinador do Napoli. Aliás, a temporada terminou de maneira melancólica, com a equipe despencando na tabela justamente quando precisava confirmar sua classificação para a Champions League.
Após permanecer durante 33 das 38 rodadas entre os quatro primeiros colocados, o Milan caiu de rendimento na reta final da temporada e terminou a Serie A somente na quinta posição. Para se ter uma ideia, os Rossoneri venceram apenas uma de suas cinco últimas partidas e desperdiçaram em pleno San Siro a oportunidade de assegurar a vaga no principal torneio europeu ao perderem do Cagliari por 2 a 1. Foi uma queda tão abrupta quanto dolorosa, responsável por encerrar prematuramente a passagem de Massimiliano Allegri por Milão.
O próprio treinador reconheceu, depois da rodada final, que os resultados do Milan desde a virada do ano haviam sido trágicos. As cinco derrotas sofridas em San Siro durante a jornada na Serie A ajudam a explicar por que um time aparentemente bem encaminhado perdeu o controle do próprio destino. Não se tratou apenas de um tropeço isolado na última rodada, mas do desfecho de um processo de deterioração que vinha acontecendo havia meses.
Na realidade, o Milan se tornou previsível ofensivamente, vulnerável nos momentos decisivos e excessivamente dependente das iniciativas individuais de seus principais jogadores. Quando Rafael Leão, Christian Pulisic e outros nomes importantes não encontravam soluções, quase nada surgia coletivamente. A demissão de Massimiliano Allegri, portanto, tornou-se inevitável depois do fracasso na corrida pela Champions League, conforme reconheceu o próprio treinador após a derrota na rodada final.
A classificação final da temporada ✅ pic.twitter.com/gq2UED2fHp
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É justamente nesse cenário de frustração que aparece Ruben Amorim, outro personagem procurando reconstruir sua imagem no mundo da bola. Milan e treinador se encontram em um momento no qual ambos precisam provar que ainda pertencem ao primeiro nível do continente. O clube deseja recuperar o protagonismo perdido, enquanto o técnico português tenta deixar para trás uma passagem extremamente desgastante pelo Manchester United.
Em outras circunstâncias, a escolha poderia ser interpretada como uma aposta arriscada demais para uma instituição pressionada por resultados imediatos. No entanto, talvez a necessidade de recomeçar seja precisamente aquilo que aproxima as duas partes. São dois gigantes feridos, cada um em sua dimensão, tentando transformar uma temporada de fracassos no ponto de partida para uma nova história.
A trajetória de Ruben Amorim no Manchester United deixou dúvidas que não podem ser ignoradas. O português insistiu no 3-4-2-1 mesmo quando o elenco não apresentava zagueiros, alas e meio-campistas adequados às exigências desse sistema. Em vez de adaptar sua abordagem às características disponíveis, tentou fazer com que os jogadores se ajustassem a um modelo que jamais funcionou plenamente em Old Trafford.
Deste modo, a convicção, considerada uma virtude durante seu período vitorioso no Sporting, acabou se transformando em inflexibilidade na Inglaterra. Ruben Amorim pareceu mais interessado em proteger sua identidade do que em encontrar respostas alternativas para os problemas apresentados pelo Manchester United. Seu grande desafio no Milan será demonstrar que aprendeu a diferença entre defender uma filosofia e permanecer prisioneiro dela.
A transformação do Manchester United depois de sua saída tornou essa discussão ainda mais relevante. Michael Carrick abandonou a linha com três zagueiros, recuperou o 4-2-3-1 e apresentou uma estrutura muito mais compatível com as características do elenco. O efeito foi imediato: foram 11 vitórias em 16 partidas, uma arrancada da sétima para a terceira colocação e a classificação para a Champions League.
Evidentemente, nenhum trabalho pode ser explicado exclusivamente por uma troca de formação, pois Michael Carrick também recuperou a confiança do grupo e simplificou algumas funções. Ainda assim, a reação expôs como o Manchester United havia sido prejudicado pela rigidez do ex-treinador do Sporting. Não à toa, Carrick acabou efetivado com contrato de dois anos, deixando Ruben Amorim diante de uma comparação que certamente o acompanhará durante seus primeiros meses na Itália.

Isso não significa, porém, que o fracasso em Manchester tenha apagado tudo o que Ruben Amorim construiu anteriormente. No Sporting, ele desenvolveu uma equipe intensa, organizada, ofensiva e capaz de acelerar rapidamente depois de recuperar a posse da bola. Também conquistou dois títulos da Liga Portugal, duas Taças da Liga e uma Supertaça, encerrando um longo período de espera da torcida sportinguista. Seu trabalho em Lisboa mostrou competência para desenvolver jovens, valorizar jogadores e criar uma identidade facilmente reconhecida. Foi esse treinador moderno, dominante e formador que convenceu a direção do Milan, não necessariamente a versão desgastada vista em Old Trafford. Ao anunciar sua contratação até 2029, os Rossoneri destacaram justamente a pressão alta, as transições rápidas e a capacidade do português de potencializar talentos.
A pergunta central, naturalmente, está relacionada à maneira como o técnico de 41 anos de idade pretende organizar o Milan. Tudo indica que o 3-4-2-1 continuará sendo seu ponto de partida, mas a Serie A exigirá variações e soluções diferentes ao longo da temporada. Mario Gila, contratado da Lazio por cerca de €30 milhões, conhece o campeonato e reúne velocidade, capacidade de antecipação e qualidade para conduzir a bola desde a defesa. O espanhol assinou até junho de 2031 depois de realizar 120 partidas em quatro temporadas pelo clube romano. Sua chegada oferece a Ruben Amorim um zagueiro habituado a defender em espaços maiores e a iniciar jogadas sob pressão. Mais do que simplesmente aumentar as opções do setor, Gila parece ter sido contratado especificamente para ocupar uma função importante dentro do novo modelo.
O investimento mais impactante, entretanto, foi realizado no ataque. Gonçalo Ramos deixou o Paris Saint-Germain e assinou contrato com o Milan até junho de 2031, em uma operação estimada em €74 milhões. Aos 25 anos, o português chega como o centroavante escolhido para liderar uma equipe que sofreu muito com a falta de continuidade nessa posição. Ele oferece presença dentro da área, intensidade para pressionar a saída adversária e movimentação para abrir espaços aos jogadores que chegam de trás. Seu conhecimento das ideias de Ruben Amorim e sua formação no futebol português também podem acelerar a adaptação ao novo projeto. Não por acaso, sua contratação foi tratada como prioridade e se transformou na maior operação financeira já realizada pelos Rossoneri.
Treinadores 🇵🇹 portugueses a orientar o Milan:
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Paulo Fonseca (2024/25)
Sérgio Conceição (2024/25)
Rúben Amorim🆕
⚠ Rúben Amorim é o 5.º treinador 🇵🇹 português a orientar uma equipa da Serie A, depois de José Mourinho, Paulo Sousa, Paulo Fonseca e Sérgio Conceição pic.twitter.com/cn139TJwII
Além dos dois grandes reforços, Ruben Amorim recebeu jogadores que retornaram de empréstimo e ainda precisarão definir seu espaço no elenco. Francesco Camarda regressou após sua experiência no Lecce e permanece como uma das maiores promessas formadas nas categorias de base do clube. Samuel Chukwueze voltou do Fulham oferecendo velocidade e capacidade de atuar pelos dois lados do ataque. Yunus Musah, novamente em Milão depois de defender a Atalanta, reúne intensidade e versatilidade para diferentes funções no meio-campo. Nenhum desses retornos possui o impacto midiático de Gonçalo Ramos, mas todos podem ser úteis em uma temporada que exigirá profundidade e alternativas. Caberá ao treinador identificar quem realmente se enquadra em sua estrutura e quem deverá ser negociado antes do fechamento da janela.
A reconstrução também passa pela manutenção de referências dentro do vestiário. Mike Maignan renovou por mais cinco temporadas e permanece como capitão, liderança técnica e um dos melhores goleiros do futebol europeu. Luka Modrić, por sua vez, assinou por mais um ano e oferece uma experiência difícil de encontrar no mercado. Embora já não consiga sustentar a mesma intensidade durante todos os jogos, o croata pode ser fundamental na organização, no controle do ritmo e na formação dos mais jovens. Logo, Ruben Amorim precisará administrar seus minutos, protegendo-o fisicamente e aproveitando sua inteligência nos momentos em que o Milan necessitar de serenidade. Uma reconstrução saudável não pode depender apenas de juventude e energia; ela também precisa de peças capazes de compreender emocionalmente o peso de vestir a camisa rubro-negra.
O mercado, contudo, ainda não parece encerrado para o Milan. O clube começou a janela investindo aproximadamente €100 milhões somente em Gonçalo Ramos e Mario Gila, mas ainda existem posições que precisam de reforços, tanto é que Diego Moreira, do Strasbourg, desembarcou em Milão por €50 milhões entre valor fixo e bônus. O ponta belga é um pedido de Ruben Amorim para acrescentar explosão, juventude e capacidade de atacar espaços pelos corredores. Todavia, sua chegada também aumentará a possibilidade de outras saídas no setor ofensivo antes do encerramento da janela.

A reformulação não se limita às chegadas, porque ao mesmo tempo o Milan vem abrindo espaço dentro do elenco e da folha salarial. Álex Jiménez foi vendido ao Bournemouth, enquanto Álvaro Morata seguiu para o Como e Lorenzo Colombo se transferiu ao Genoa. Tommaso Pobega deixou definitivamente o clube rumo ao Bologna, e Niclas Fullkrug retornou ao West Ham após o término de seu empréstimo. Também existem incertezas envolvendo nomes como Fikayo Tomori, Christopher Nkunku, Santiago Giménez, Youssouf Fofana e Pervis Estupiñán. Essas possíveis negociações indicam que Ruben Amorim não pretende apenas corrigir pequenos detalhes do grupo deixado por Massimiliano Allegri, como também deseja remodelar o elenco de acordo com suas ideias, o que aumenta simultaneamente sua autoridade e sua responsabilidade pelos resultados.
Os amistosos de pré-temporada mostraram que essa transformação ainda está longe de ser concluída. A derrota por 3 a 0 para o Chelsea expôs dificuldades na construção, problemas defensivos e a falta de sincronização entre os setores. Poucos dias depois, o Milan reagiu ao derrotar o Manchester United por 4 a 2, justamente no reencontro de Ruben Amorim com seu antigo clube. Samuel Chukwueze, Alphadjo Cissé, Gonçalo Ramos e Ruben Loftus-Cheek marcaram os gols de uma atuação bem mais agressiva. O resultado não apaga os problemas anteriores, mas oferece confiança antes da estreia na Serie A contra o Torino. Mais importante do que o placar foi perceber uma equipe capaz de reagir, pressionar e encontrar diferentes caminhos para chegar ao gol.
Em resumo, Ruben Amorim e Milan chegam a esse casamento carregando cicatrizes, dúvidas e uma necessidade enorme de afirmação. O treinador precisa provar que não é apenas um técnico de um único sistema, enquanto o clube precisa mostrar que ainda sabe construir projetos esportivos consistentes. Gonçalo Ramos, Mario Gila e Diego Moreira são sinais importantes de investimento, mas nenhum mercado milionário substituirá a evolução coletiva que faltou na reta final da última temporada.
Deste modo, se Ruben Amorim demonstrar flexibilidade e recuperar a capacidade de desenvolver jogadores exibida no Sporting, poderá encontrar em Milão o ambiente perfeito para reconstruir sua reputação. Se repetir a rigidez apresentada em Manchester, o peso da camisa e a impaciência do futebol italiano rapidamente transformarão esperança em pressão. Afinal, estamos diante do início de uma verdadeira retomada ou apenas de mais uma tentativa desesperada de um clube e um treinador escaparem dos próprios fracassos?
A ver!