O verdadeiro Bayern deu as caras na Champions League

A virada por três gols sofrida pelo Bayern de Munique frente o Heidenheim na rodada anterior da Bundesliga (3 a 2) foi apenas mais uma das diversas marcas negativas registradas pelo Gigante da Baviera ao longo da temporada 2023-24.

A propósito, o sexto revés dos comandados de Thomas Tuchel na Bundesliga, que corresponde ao maior número de derrotas assinaladas pelo Bayern desde a última temporada em que o clube não ergueu a Meisterschale, reduziu para menos de um por cento as chances dos bávaros impedirem o fim da sua hegemonia no certame do futebol alemão, dada a larga distância de 16 pontos aberta pelo líder Bayer Leverkusen, a seis rodadas do término da competição.

Diante deste obscuro cenário, o Bayern de Munique desembarcou em Londres para encarar o Arsenal pelas quartas-de-final da Champions League com a confiança totalmente em baixa, e pressionado na busca pelo único possível título da temporada, ainda que os alemães tivessem derrotado os ingleses por 5 a 1 nos últimos três jogos disputados entre ambos, resultados que consolidaram a freguesia dos Gunners no histórico geral do confronto.

No entanto, contrariando as expectativas, os atuais hendecacampeões da Bundesliga regressaram à Baviera não somente com um empate em 2 a 2 na bagagem, mas também com a esperança fortalecida em relação a classificação às semifinais da Champions League por conta do bom futebol apresentado no Emirates Stadium, algo visto somente duas vezes até então sob a batuta de Thomas Tuchel, sendo a primeira no jogo de estreia do ex-treinador do Chelsea, marcada pela goleada por 4 a 2 sobre o Borussia Dortmund, e a segunda no contundente 3 a 0 frente o Stuttgart, no final do ano passado.

Assim como naquelas partidas contra Borussia Dortmund e Stuttgart, no Emirates Stadium o Bayern abriu mão de atuar ofensivamente, como um nobre clube europeu, para jogar de forma mais reativa, como se fosse um forasteiro, ao desconsiderar a posse de bola – haja vista o baixo índice de 41% – em prol dos perigosos contra-ataques puxados pelos velozes Serge Gnabry e Leroy Sané.

Aliás, por falar em Leroy Sané, é importante destacar a excelente apresentação do tão questionado ponta-esquerda alemão, um dos principais destaques da partida que calou os críticos por mais que não tenha dado nenhuma assistência, tampouco balançado as redes, diferentemente dos autores dos gols do Bayern em solo inglês, Serge Gnabry e, é claro, Harry Kane.

Por sinal, se marcar gols é uma das maiores especialidades de Harry Kane, o que dirá no Arsenal, que no jogo ante o Bayern de Munique foi vazado pela 15ª vez pelo atacante da seleção inglesa em 20 jogos e, de quebra, ainda viu o antigo jogador do rival, Tottenham, se tornar o maior artilheiro contra os Gunners no Emirates Stadium com 6 tentos assinalados.

Além do mais, outro detalhe que chamou a atenção é que o Bayern não se abalou pelo fato de ter saído atrás do marcador, muito pelo contrário, a postura segura, sólida e confiante dos bávaros foi crucial para a virada ainda no primeiro tempo. Ou seja, eles souberam sofrer, o que jamais foi visto desde o início da temporada.

Por este motivo, o empate no Emirates Stadium recordou bastante a decisão da temporada 2000-01 da Champions League, quando o Bayern, na época comandado por Ottmar Hitzfeld, saiu da incômoda fila de 25 anos sem erguer a orelhuda ao superar o Valencia nas penalidades, depois de um dramático empate em 1 a 1 no estádio San Siro.

Ademais, trazendo o assunto mais para a atualidade, o próprio Thomas Tuchel conquistou a sua única Champions League na carreira à frente do Chelsea ao vencer o Manchester City pelo placar mínimo em 2021, por intermédio de um jogo defensivo, com as suas linhas posicionadas em bloco baixo, e através de rápidas transições.

Ah, mas então por que o Bayern não utilizou o Tuchelball ao longo da temporada? A resposta é simples, porque para praticá-lo os bávaros precisam enfrentar oponentes que propõe jogo, isto é, que busquem controlar as partidas através da posse de bola, o que raramente acontece na Bundesliga, onde a grande maioria dos adversários atuam fechados na defesa. Portanto, Thomas Tuchel e companhia limitada serão mais uma vez obrigados a explorar os crônicos problemas na construção e no jogo combinado no terço final no próximo compromisso diante do Colônia.

Nem sempre temos que jogar de forma envolvente. O futebol é sobre o que acontece nas duas balizas. Como você chega lá e com quanta posse é irrelevante. É sempre bom jogar com alguma humildade. Isso nos ajudou a conduzir o jogo contra o Arsenal.

Thomas Muller, atacante do Bayern de Munique

Ao mesmo tempo, esta é a razão pela qual a campanha do Bayern de Munique na Champions League não é decepcionante como na Bundesliga, tendo em vista que os alemães encerraram a fase de grupos como líderes da sua chave e, posteriormente, passaram pela Lazio nas oitavas-de-final com uma vitória por 3 a 1 no placar agregado, colecionando 6 vitórias, 2 empates, 1 derrota, 17 gols marcados e nove sofridos, em jogos realizados até o momento pelo torneio.

Por fim, existe também o aspecto emocional, uma vez que a vibração do Bayern muda completamente nas noites europeias de Champions League, talvez porque os campeões alemães das últimas onze temporadas não se sintam tão esfomeados para competir contra equipes locais, à custa da sua superioridade.

Logo, mesmo que o Gigante da Baviera não complete a segunda metade do caminho que leva as semifinais da Champions League, que ao menos o empate na capital inglesa tenha servido de aprendizado para mostrá-lo que sem paixão, flama e apetite, não se chega a lugar algum.

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