O fim da era De Zerbi no Olympique de Marseille e a revolução que ficou pela metade

Marselha nunca foi terreno neutro. Cidade portuária, acostumada a invasões, resistências e recomeços, ela carrega no imaginário francês uma identidade combativa que atravessa séculos. O Olympique de Marseille sempre refletiu essa pulsação histórica: intenso, passional, por vezes desorganizado, mas jamais indiferente. Cada temporada ali parece carregar um peso simbólico maior do que apenas a soma de seus pontos. E o que acontece agora, no coração desta campanha, não é apenas uma troca de treinador — é mais um capítulo de uma história marcada por esperança, ruptura e reinvenção. Porque, em Marselha, toda mudança soa como revolução, ainda que silenciosa.

Quando Roberto De Zerbi desembarcou na Costa do Mar Mediterrâneo no verão europeu de 2024, ele trouxe consigo uma promessa estética. Um futebol ofensivo, dinâmico, intenso, capaz de enfrentar o domínio absoluto do Paris Saint-Germain mesmo sem os mesmos recursos financeiros. A diretoria marselhesa acreditava que, se não podia competir em orçamento, competiria em ideia. A aposta era clara: modernizar o jogo, acelerar a circulação da bola, impor personalidade tática. A cidade comprou a narrativa. Havia ali uma tentativa de romper com a resignação histórica diante do PSG. Era menos sobre igualdade estrutural e mais sobre ousadia estratégica.

A primeira temporada trouxe argumentos para sustentar essa crença. O vice-campeonato francês e a consequente vaga na Champions League pareciam confirmar que o projeto tinha fundamento. Não era ainda a superação do rival parisiense, mas era uma aproximação simbólica. A equipe demonstrava coragem ofensiva, produzia jogos de impacto e alimentava a sensação de que algo novo estava sendo construído. Foi essa classificação continental que garantiu a permanência de De Zerbi no cargo. O clube entendia que havia progresso, mesmo que imperfeito.

Mas o futebol raramente é linear. Se o Olympique de Marseille era capaz de grandes goleadas e atuações vibrantes, também era vulnerável a derrotas acachapantes. A irregularidade tornou-se marca registrada do projeto. Faltava consistência competitiva. Faltava equilíbrio entre risco e controle. O time parecia viver de extremos: euforia em uma rodada, frustração na seguinte. Essa oscilação corroía lentamente a confiança coletiva, tanto interna quanto externamente. Em um campeonato que exige regularidade quase matemática para disputar o topo, a instabilidade custa caro.

Internamente, os conflitos agravaram o cenário. A relação de Roberto De Zerbi com o vestiário nunca foi plenamente harmoniosa. O clima tornou-se tenso em diversos momentos. Adrien Rabiot deixou o clube após o primeiro jogo da temporada, em meio a um episódio conturbado junto a Jonathan Rowe, que também saiu. Outras fraturas surgiram, como os desentendimentos com Amir Murillo e Neal Maupay. O projeto que buscava modernidade tática passou a conviver com instabilidade humana. E nenhum modelo de jogo sobrevive por muito tempo quando o ambiente interno se fragmenta.

A diretoria, por sua vez, não economizou para sustentar o plano. Foram 90 milhões de euros investidos no verão de 2024, mais 20 milhões no inverno seguinte. Em 2025, outros 95 milhões foram aplicados, além de 15 milhões neste último mês de janeiro, com o objetivo claro de preparar o retorno competitivo à Champions League. O investimento foi robusto, ambicioso e coerente com a meta estabelecida. O clube acreditou no projeto. O problema não foi falta de suporte financeiro, mas a dificuldade em transformar gasto em estabilidade.

O principal calcanhar de Aquiles sempre foi a defesa. Mesmo com novas contratações e uma reconstrução pensada para fortalecer o setor defensivo nesta temporada, os problemas persistiram. O Olympique de Marseille continuou vulnerável em jogos grandes, exposto em transições e incapaz de sustentar vantagens. A tentativa de ajustar o desequilíbrio estrutural não surtiu efeito prático. A promessa de um time mais sólido não se confirmou dentro de campo. E, sem base defensiva consistente, qualquer ambição ofensiva se torna frágil.

A eliminação precoce na Champions League foi o primeiro grande golpe emocional da temporada. O Marseille sequer conseguiu terminar entre os 24 classificados para os playoffs de repescagem. Para um clube que investiu pesado justamente pensando em competir na Europa, a frustração foi profunda. A queda continental não representou apenas um revés esportivo, mas também simbólico. A narrativa de crescimento começou a ruir ali. O projeto que deveria consolidar o clube no cenário europeu mostrou-se ainda imaturo.

O estopim definitivo veio no Le Classique. A derrota por 5 a 0 para o Paris Saint-Germain entrou para a história como a pior do Olympique de Marseille no confronto. Não foi apenas um resultado elástico; foi um choque de realidade. Em campo, a distância entre os projetos pareceu maior do que nunca. Aquele jogo condensou todas as fragilidades da temporada: defesa exposta, emocional abalado, incapacidade de reação, falta de confiança por parte dos jogadores. Depois dali, a permanência tornou-se insustentável.

Oficialmente, não houve demissão. Houve um acordo. Em contrapartida, na prática, tanto clube quanto treinador desejavam o rompimento. O vínculo já estava desgastado. Roberto De Zerbi permaneceu 69 jogos no comando, com 39 vitórias, 8 empates e 22 derrotas, registrando 57% de aproveitamento — a maior taxa de vitórias entre os treinadores do clube no século XXI, superando Igor Tudor e Jorge Sampaoli. Paradoxalmente, sai com números históricos. Mas o futebol não é feito apenas de estatísticas; é feito de timing.

Agora, o nome mais cotado para assumir é Habib Beye, técnico senegalês de 48 anos, que estava no Rennes. Ex-jogador do próprio Olympique de Marseille entre 2003 e 2007, conhece o ambiente, conquistou títulos e carrega identificação com o clube. Sua possível chegada simboliza uma tentativa de reconexão com a identidade marselhesa. Mais do que um treinador, pode representar um retorno à essência.

Os marselheses ocupam atualmente a quarta colocação na tabela da Ligue 1, onze pontos atrás do líder PSG, mas ainda firmes na disputa por uma vaga na próxima Champions League. Esse é o objetivo imediato: salvar a temporada garantindo presença europeia. O cenário não é de terra arrasada, mas tampouco é confortável. A margem para erro é mínima. Cada jogo restante será decisivo.

Marselha já viveu guerras, crises e reconstruções. Seu clube carrega a mesma alma inquieta da cidade. A saída de Roberto De Zerbi encerra um projeto ambicioso que prometeu modernidade, investimento e enfrentamento direto ao poder estabelecido. Parte desse sonho se concretizou, parte ficou pelo caminho. Agora, em meio a mais uma encruzilhada histórica, resta a dúvida que ecoa pelas arquibancadas do Vélodrome: a próxima revolução será finalmente a que levará o Olympique de Marseille ao equilíbrio competitivo que tanto busca — ou estamos apenas diante de mais um ciclo de esperança interrompida.

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