Quando o raio não voltou: o adeus melancólico de Gallardo em Núñez

Dois raios não caem duas vezes no mesmo lugar. Esta popular frase serve como metáfora quase cruel para explicar a saída de Marcelo Gallardo do River Plate. Depois de uma primeira passagem histórica pelo clube de Núñez, entre 2014 e 2022, na qual conquistou 14 títulos e recolocou o Millonario no topo da América do Sul, o treinador retornou à Núñez cercado de expectativa quase messiânica após uma breve trajetória à frente do Al-Ittihad. Mas desta vez o raio não incendiou o céu. Ele se dissipou em meio a uma atmosfera pesada, resultados insuficientes e um desgaste que culminou em uma despedida amarga.

A primeira era de Marcelo Gallardo foi mais que vencedora: foi transformadora. O River Plate deixou de ser apenas grande para se tornar dominante. Libertadores, Recopa, Copa Argentina, títulos nacionais e, sobretudo, identidade. O time tinha personalidade, agressividade competitiva e um senso de pertencimento que fazia o Monumental pulsar. Gallardo era o arquiteto, o líder máximo, o homem que dava forma e alma ao projeto esportivo. Por isso, seu retorno parecia a retomada natural de um ciclo interrompido, quase uma extensão inevitável da própria história.

Mas futebol não é poesia linear. Neste segundo ciclo, o cenário foi outro. O River Plate ocupa apenas a décima posição no Grupo 2 do Torneio Apertura, somando sete pontos em seis jogos. Uma única vitória nas últimas cinco partidas, sendo três derrotas consecutivas na competição doméstica. Números incompatíveis com o tamanho da instituição e, principalmente, com o investimento feito. O desempenho em campo não refletiu a expectativa criada fora dele.

E investimento não faltou. Foram mais de 80 milhões de dólares gastos nas últimas quatro janelas de transferências, justamente para atender aos pedidos de Marcelo Gallardo. O elenco foi moldado sob sua supervisão, com atletas experientes e nomes de peso. Não à toa, o River Plate é dono do plantel mais valioso do futebol argentino. A responsabilidade técnica e esportiva estava alinhada com o comando. Ainda assim, o rendimento coletivo ficou muito aquém do esperado.

A despedida, marcada para o duelo contra o Banfield no Monumental, carrega um simbolismo pesado. O estádio que testemunhou glórias continentais agora será palco de uma saída melancólica. Marcelo Gallardo pede demissão diante da má fase, reconhecendo que o ciclo perdeu força. O homem que foi escudo e proteção da equipe decide sair para aliviar a pressão institucional. Um gesto que mistura grandeza e frustração.

El Muñeco já possui uma estátua de bronze localizada nas proximidades do Estádio Monumental de Núñez, que pesa aproximadamente seis toneladas e meia. O monumento simboliza a eternidade de sua primeira passagem, somada a idolatria dos tempos em que defendeu as cores do River Plate dentro de campo. Mas agora, metaforicamente, todo esse peso recai sobre os ombros dos jogadores. O “macho alfa” que absorvia críticas e centralizava responsabilidades não estará mais ali. A proteção acabou. O escudo caiu. E o elenco precisará responder sem a blindagem do ídolo.

O grupo colorado, aliás, é experiente. Lucas Martínez Quarta, Paulo Díaz, Sebastián Driussi, Juan Fernando Quintero e Kevin Castaño, acumulam vivência internacional. Há ainda quatro campeões do mundo pela Argentina no Catar 2022: Franco Armani, Gonzalo Montiel, Marcos Acuña e Germán Pezzella. Não se trata de um elenco jovem e imaturo. Trata-se de um grupo rodado, acostumado a decisões. Justamente por isso, a cobrança tende a ser ainda mais severa.

O problema é que o desempenho coletivo não acompanha a experiência individual. A defesa tem se mostrado vulnerável, concedendo espaços e cometendo erros posicionais. O meio-campo carece de criatividade, circula a bola de forma previsível, com passes laterais e ritmo lento. O ataque desperdiça oportunidades claras e demonstra falta de confiança nos momentos decisivos. O River, hoje, parece uma equipe desconectada de sua própria identidade.

A ausência de Juan Fernando Quintero agrava esse cenário. O camisa 10, lesionado, participou de quatro dos cinco gols do time até aqui na temporada e era o cérebro criativo do River Plate. Seu passe vertical, sua leitura de jogo e sua ousadia eram diferenciais raros. Sem ele, os Millonarios perdem profundidade e imprevisibilidade. Ficam ainda mais dependentes de jogadas individuais ou de bolas paradas.

A pressão, portanto, não é apenas tática. É emocional. A saída de Marcelo Gallardo dobra a carga psicológica sobre o elenco. O limite de tolerância da torcida se aproxima do zero. Cada erro será amplificado. Cada empate será tratado como fracasso. Até mesmo os jovens das categorias de base — como Ruberto, Subiabre, Lencina, Rivero e companhia — sentirão o peso de vestir uma pesadíssima camisa que exige resposta imediata.

O próximo treinador herdará um desafio complexo. Nomes como Hernán Crespo, Santiago Solari, Ariel Holan, Eduardo Coudet, Gabriel Milito, Pablo Aimar, Diego Placente e Ramón Díaz surgem no radar. Crespo, atualmente no São Paulo, aparece como favorito. Nota-se que quase todos possuem ligação histórica com o River Plate, o que reforça a busca por identidade e pertencimento. Mas assumir esse cargo agora significa administrar expectativas gigantescas e um ambiente pressionado.

Há ainda um agravante institucional: o River não disputa a Copa Libertadores este ano depois de participações ininterruptas desde 2015, quando sagrou-se tricampeão. Um reflexo direto do desempenho abaixo das expectativas desde o retorno de Marcelo Gallardo. Para um clube acostumado a competir no topo do continente, a ausência pesa. Financeiramente, esportivamente e simbolicamente. Os Millonarios precisarão reconstruir sua trajetória sem o palco internacional que marcou sua era mais gloriosa.

Começa, portanto, a era pós-Gallardo. Uma fase que exige maturidade coletiva, resposta técnica e força mental. O ídolo sai pela porta da frente da história, mesmo com o gosto amargo desta despedida. Sua estátua permanece como lembrança eterna do que foi construído. Agora, cabe aos jogadores e ao novo comandante provar que o River Plate é maior do que qualquer ciclo — e que, mesmo quando o raio não cai duas vezes no mesmo lugar, a instituição ainda pode encontrar nova energia para iluminar o Monumental.

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